Craque, líder e predestinado: FERNANDÃO nasceu para ser ETERNO

RELEMBRE TEXTO DE JUNHO DE 2014:

Fernandão eterno

É comovente e mais do que justo o carinho que a memória de Fernandão inspira entre a crônica esportiva e, principalmente, entre os torcedores, ilustrados nas manifestações pelas redes sociais. Até mesmo em sua despedida, o eterno camisa 9 fez história: foi capaz de cessar por alguns dias a nem sempre salutar rivalidade Gre-Nal. Em uma homenagem institucional, o Grêmio colocou sua bandeira a meio mastro, a exemplo do Inter, claro. No Twitter, Facebook e Instagram, gremistas prestaram homenagens e exaltaram força aos colorados pela perda de seu maior ídolo na história contemporânea. Aos colorados, resta dor, saudade e, principalmente, pródigas lembranças.

Patamar

Na seara gaúcha, Fernandão personifica a retomada do Internacional no século 21. Tendo nele a maior referência, o Inter voltou ao protagonismo, ao topo, fato ausente desde a geração de ‘ouro’ da década de 70. Com um acréscimo: Liderado pelo craque, o Inter passou de fato a ser, Internacional. Sem desmerecer outros grandes nomes que vestiram a camiseta colorada, mas Fernandão, ao lado de Falcão, são as duas maiores grifes da centenária história colorada. Em quatro anos, Fernandão marcou 77 gols em 190 partidas pelo colorado.

Obrigado, capitão!

Predestinado, Fernando Lúcio da Costa tornou-se mito no colorado logo em sua estreia, quando de cabeça — sua maior especialidade — marcou o gol mil na história dos clássicos Gre-Nais. Depois disso, consolidou-se no comando de ataque da equipe, sendo referência nas conquistas da primeira Libertadores do Inter, em 2006 e, sobretudo, na conquista do Mundial, em dezembro do mesmo ano. Fernandão tratava a bola com fino trato, com a mesma destreza que cultuava seus fãs e vinha aos microfones conceder entrevistas. Sem nenhum exagero, Fernandão, notadamente por sua importância histórica, mas também por sua qualidade técnica, é o maior centroavante da história do Internacional. Que descanse em paz e muito obrigado por tudo. Vê-lo em campo foi uma dádiva para toda a opinião pública esportiva.

Faixa no braço e no peito

INTER 2006

Fernandão tinha notoriedade não apenas por sua performance dentro de campo, mas também pelo seu diferencial fora da ‘cena de batalha’. Culto, bem informado e profundo conhecedor de tática, F9 não cultivava a soberba — normalmente regra entre os boleiros bem sucedidos — e era um legítimo capitão, conforme ilustrou Adriano Gabiru — autor do gol da vitória sobre o Barcelona na conquista do Mundial, em 2006, em entrevista exclusiva ao Futebol Além de Resultado: “O Fernandão era nosso líder dentro e fora de campo”, relembrou.

17 de dezembro

fernandao antes mundial

Embora o gol tenha sido marcado por Adriano Gabiru, sem dúvidas o nome que melhor representa a conquista do Mundial de Clubes colorado é justamente o do eterno camisa 9. Um dos goleadores do time na Libertadores, o capitão notabilizou-se por sua ascendência técnica e, sobretudo, por sua inegável liderança junto ao grupo. Durante a estada em Yokohama, em uma das reuniões entre a comissão técnica e os jogadores, Fernandão interveio: “Abel [Braga], precisamos bloquear a saída de bola do Barcelona. Deixa que vou para o sacrifício e marcarei o Thiago Motta”, disse. Está explicado as câimbras do ídolo colorado. Logo ele, sempre protagonista com gols e assistências, teve destaque por seu trabalho tático. Eis mais um capítulo de uma noite atípica e memorável para os ‘vermelhos’.

Dentro de campo

INTER MUNDIAL F9


Versátil, o camisa 9 tinha na inteligência a sua grande virtude dentro de campo. Embora preferisse atuar como quarto homem de meio-campo, conforme jogou no Mundial contra o Barcelona, Fernandão era inegavelmente diferenciado próximo à área adversária. Com qualidade técnica pouco comum em atletas de 1,90 cm, por vezes F9 recuava como se fora um segundo atacante, chamava a marcação e tornava Rafael Sóbis, na Libertadores 2006, o atacante mais avançado. No segundo semestre daquele ano, fez interessante dupla com Iarley. No entanto, foi com Nilmar, em 2008, que formou a melhor dupla ofensiva do futebol brasileiro.

Nobreza ímpar

F9 e pele

Com estilo todo peculiar de cobrar pênaltis, Fernandão usava uma derivação  da “paradinha” para vencer os goleiros rivais. Outra de suas marcas registradas era a vitória pessoal na bola aérea. Além dos inúmeros gols, o centroavante, perdia pouquíssimas bolas no ‘balão do goleiro’ e, sempre ‘dava a casquinha’ ou azeitava a bola para os companheiros. Poucas vi uma jornada individual tão sublime quanto a de Fernandão na final do Gauchão 2008 do Inter frente ao Juventude. Autor de três gols do 8 a 1, o craque havia convivido a semana inteira com críticas por ter perdido a bola que originou o gol de empate do time da serra, na partida anterior, no Alfredo Jaconi. De branco, tal qual na vitória contra o Barça, o Inter ali rasgava definitivamente a outrora ‘touca’ chamada Juventude e dissipava, por inteiro, a desconfiança em relação ao seu maior ídolo.

Mistério e aposentadoria

Fernandao estátua

Até hoje não entendo o desinteresse do Inter em repatriar Fernandão, em 2009, quando deixou o Al-Gharafa do Qatar — o que fez com que o ídolo voltasse a defender seu clube de origem, o Goiás. Depois disso, F9 serviu o São Paulo e aposentou-se precocemente, devido a problemas no púbis. Em julho de 2011, assumiu uma nova função, a de diretor executivo, agora sim, de volta ao Beira-Rio. Um ano depois assumiu o comando técnico do Inter, substituindo o técnico Dorival Jr. Por fim, estava iniciando a carreira de comentarista no canal Sportv. Hoje faz 365 dias que o atacante deixou a vida para virar lenda. Definitivamente, Fernandão nasceu para ser eterno…

@saul_teixeira é Jornalista

Foto: Internacional Oficial/arquivo

*Texto publicado originalmente em 9 de junho de 2014

Adicionar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *